
Warsh belisca Wall Street com ameaça de subida de juros
O discurso do presidente da Fed em Jackson Hole reacende as apostas num aumento de taxas em Setembro, contrariando o guião que os mercados tinham escrito para si próprios
Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal, disse em Jackson Hole que o banco central «tem trabalho a fazer» se a inflação não abrandar em breve, segundo a Financial Times e a BBC. A frase, dita num fórum onde os bancos centrais costumam sinalizar as próximas jogadas, foi lida por Wall Street como um aviso directo: se os preços não recuarem nos próximos meses, a Fed está pronta para subir juros em vez de os cortar.
O momento não é neutro. Os mercados chegavam a Jackson Hole a apostar num ciclo de descidas de taxas, depois de meses de dados mistos sobre inflação e de pressão política da Casa Branca para juros mais baixos. Warsh, que Trump colocou à frente da Fed precisamente por ser visto como mais dócil às prioridades da administração, escolheu em vez disso um tom hawkish. Isso surge também numa semana em que a Casa Branca suspendeu tarifas sobre carne importada para travar a subida dos preços dos supermercados, uma medida que gerou fricção interna no Partido Republicano e que sublinha até que ponto a inflação continua a ser o tema central da política económica americana.
A reacção imediata foi um reforço das apostas num aumento de taxas em Setembro, o que empurra para cima os rendimentos das obrigações do Tesouro americano e tende a fortalecer o dólar. Para quem gere capital entre Portugal, Espanha e o resto da Europa, isso significa custos de financiamento mais altos em dólares, pressão adicional sobre moedas emergentes e um argumento a mais para o Banco Central Europeu manter uma postura cautelosa, mesmo que a inflação na zona euro continue a arrefecer a ritmo diferente do americano.
O que ainda não está claro é se Warsh vai mesmo transformar a retórica em voto na próxima reunião, ou se a subida de tarifas suspensas e depois restauradas sobre a carne vai complicar ainda mais a leitura dos dados de inflação nas próximas semanas. Também por confirmar fica a reacção da Casa Branca a um presidente da Fed que escolheu, publicamente, não lhe fazer a vontade.




