
Febre da dívida dos EUA resiste à intervenção de Bessent
Uma operação de 6 mil milhões de dólares no mercado obrigacionista não travou a subida dos juros, e o petróleo soma pressão inflacionista à espera dos dados de sexta-feira
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, lançou esta semana uma operação de recompra de dívida no valor de 6 mil milhões de dólares para conter a subida dos custos de financiamento do Governo dos Estados Unidos. Segundo o Financial Times, a medida não chegou para travar o que investidores descrevem como uma "febre" no mercado de obrigações, com os rendimentos a manterem a trajectória ascendente.
A tensão nos mercados de dívida soberana não se limita aos Estados Unidos. O Financial Times nota que os receios de subida das taxas de juro se propagam pelos mercados obrigacionistas globais, num momento em que o petróleo sobe por causa do avanço dos rebeldes houthis no Iémen, elevando ainda mais o risco inflacionista que os bancos centrais têm de gerir.
O pano de fundo é a guerra entre Israel e o Irão, que já dura semanas e continua a condicionar o apetite pelo risco. Segundo o Financial Times, o Irão e Estados do Golfo vão reunir-se numa tentativa de fechar um acordo sobre o estreito de Hormuz, através de um entendimento provisório de navegação entre Teerão e Omã, que serviria de ponte para aliviar as hostilidades e reabrir a via marítima.
As consequências práticas já se veem fora da zona de conflito. O Dubai Airports está a avançar com tanques de combustível subterrâneos para proteger a expansão do aeroporto contra eventuais ataques, sinal de que operadores na região tratam o risco de guerra como um dado permanente do planeamento, não como um episódio passageiro.
Para quem gere capital entre Portugal, Espanha e os mercados globais, o efeito imediato é o encarecimento do crédito. Rendimentos mais altos nas obrigações do Tesouro americano tendem a arrastar consigo os custos de financiamento na Europa, com impacto directo em hipotecas, dívida corporativa e no custo de refinanciamento dos próprios Estados.
O teste seguinte chega já esta sexta-feira, com a divulgação de dados de inflação nos Estados Unidos. Segundo o Financial Times, os mercados aguardam esse indicador para perceber se a Reserva Federal tem margem para cortar juros ou se a pressão inflacionista, agravada pelo petróleo, obriga a manter a política monetária restritiva.
Fica por saber se a operação de Bessent terá continuidade e em que escala, se o entendimento entre o Irão e os Estados do Golfo sobre Hormuz se traduz num alívio efectivo do preço do petróleo, e se os dados de inflação de sexta-feira vão confirmar ou desmentir os receios que hoje dominam o mercado obrigacionista.
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