
Venda de dívida soberana agrava-se na Ásia apesar do petróleo mais barato
Os juros da dívida japonesa e australiana sobem mesmo com o preço do petróleo a cair, um sinal de que o mercado teme algo mais do que inflação energética.
O mercado global de obrigações soberanas atravessa uma nova fase de venda generalizada, com os rendimentos da dívida pública a subir de forma acentuada na Ásia, segundo o Financial Times. O movimento atinge em particular o Japão e a Austrália, dois mercados que até há poucos meses ofereciam alguma estabilidade face à volatilidade registada nos Estados Unidos e na Europa.
O que torna este episódio incómodo para quem gere capital é a desconexão com o petróleo. Em teoria, uma queda no preço do crude alivia as pressões inflacionistas e deveria facilitar a descida dos juros de longo prazo. Aconteceu o contrário: os custos de financiamento dos governos japonês e australiano subiram mesmo com a energia mais barata, segundo o mesmo jornal. Isso sugere que o mercado está a precificar outro risco, provavelmente ligado à sustentabilidade orçamental e à oferta crescente de dívida pública nas economias desenvolvidas, e não apenas à trajectória da inflação importada.
O Financial Times nota, num segundo artigo, que a situação podia ser pior: os níveis actuais de rendimento, apesar de desconfortáveis, ainda não reproduzem os picos de crise vistos em anos anteriores. Para investidores com exposição a obrigações de longo prazo, isso é um alívio relativo, mas não elimina a pressão sobre os orçamentos públicos que têm de refinanciar dívida a taxas mais altas num momento em que o crescimento global permanece lento.
Para quem gere poupança ou dívida entre Portugal e Espanha, o episódio importa porque os juros soberanos da periferia europeia tendem a seguir, com desfasamento, o movimento das taxas de referência globais. Um encarecimento persistente do financiamento japonês e australiano pressiona indirectamente o custo do crédito em toda a zona euro, através dos mercados de swaps e da procura por activos refúgio.
O que ainda não está claro é se este movimento marca o início de uma correcção mais profunda nos mercados de dívida ou um ajuste técnico isolado aos leilões recentes na Ásia. Os bancos centrais do Japão e da Austrália não comentaram publicamente, segundo as fontes citadas, e o próximo teste real virá dos leilões de dívida programados para as próximas semanas.
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