
Petróleo a 114 dólares e dúvidas sobre IA afundam bolsas
O crude mais caro desde Maio junta-se ao receio de que a bolha da inteligência artificial esteja a esvaziar-se, numa combinação que já se sente nos indicadores de consumo britânicos
O petróleo Brent superou os 114 dólares por barril esta semana, o valor mais alto desde Maio, segundo o Financial Times e o Wall Street Journal. A subida reflecte o receio de uma escalada entre os Estados Unidos e o Irão, depois de o enviado norte-americano Mike Waltz ter avisado Teerão de que Washington está preparado para um impasse longo caso não haja um acordo nuclear significativo. Teerão, por seu turno, ameaçou alargar os ataques a alvos económicos e civis se for atacada, segundo o WSJ, o que levou Washington a retirar mais militares e diplomatas da região.
A subida do crude surge no mesmo momento em que os mercados accionistas globais recuam, pressionados por um segundo factor: a dúvida crescente sobre a sustentabilidade do investimento maciço em inteligência artificial. O Financial Times descreve o movimento como 'o Inverno a chegar aos mercados', com obrigações e acções a transmitirem o mesmo sinal de desconfiança. A combinação de energia mais cara e correcção nas avaliações tecnológicas é rara: normalmente um dos dois factores compensa o outro nas carteiras diversificadas.
O impacto já é visível fora dos mercados financeiros. No Reino Unido, as vendas a retalho caíram e a confiança do consumidor registou a queda mais rápida desde o referendo do Brexit em 2016, de acordo com o Guardian, numa altura em que o ministro das Finanças britânico prepara o orçamento da próxima semana. O jornal associa directamente a deterioração ao agravamento do conflito no Médio Oriente, que encarece a energia e aperta o orçamento das famílias já pressionadas pelo custo de vida.
Para quem tem exposição a mercados europeus e norte-americanos, a questão central é se se trata de uma correcção técnica nas tecnológicas, amplificada por um choque petrolífero temporário, ou do início de um ciclo mais longo de reavaliação de risco. O Financial Times nota ainda que a estratégia do Tesouro norte-americano de encurtar a maturidade da dívida pública se torna mais arriscada precisamente se a inflação subir e o optimismo em torno da IA esmorecer ao mesmo tempo. Não há, para já, indicação clara de quanto tempo os preços do petróleo vão permanecer nestes níveis, nem se a tensão entre Washington e Teerão evolui para confronto directo ou para negociação.
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