
Venda maciça de dívida soberana atinge Reino Unido e Japão
Juros das obrigações britânicas sobem ao nível mais alto desde 2008 e os japoneses aos mais altos desde os anos 90, com o petróleo a agravar o medo de inflação
O mercado global de obrigações soberanas viveu ontem mais uma sessão de vendas generalizadas, com os custos de financiamento do Reino Unido a subirem ao nível mais elevado desde 2008 e os juros da dívida japonesa a atingirem valores não vistos desde a década de 1990, segundo o Financial Times.
O movimento reflecte o receio crescente de que a inflação volte a acelerar num momento em que os bancos centrais já perderam margem para cortar juros com a rapidez que os mercados assumiam há poucos meses. A subida do preço do petróleo, motivada pela retoma dos combates entre Estados Unidos e Irão e pelo risco acrescido sobre o tráfego no estreito de Hormuz, segundo o Wall Street Journal, veio somar-se a essa pressão: mais petróleo caro significa mais inflação importada, precisamente o que os investidores em dívida de longo prazo mais temem.
No Reino Unido, o encarecimento da dívida pública chega num momento delicado. O Nationwide informou que os preços das casas voltaram a subir em Agosto pela primeira vez desde Abril, um sinal de que o mercado imobiliário aguarda, tal como os investidores em obrigações, a próxima decisão de juros do Banco de Inglaterra. Juros mais altos na dívida soberana tendem a arrastar consigo o custo dos empréstimos hipotecários e do crédito às empresas, travando justamente a recuperação que esses dados começavam a sugerir.
Para quem gere capital entre Lisboa, Madrid e os mercados globais, o efeito imediato é duplo: encarecimento do financiamento de dívida pública em toda a Europa, incluindo Portugal e Espanha, cujos juros tendem a acompanhar o movimento das economias de referência, e maior volatilidade nos mercados accionistas, sensíveis a qualquer sinal de que os bancos centrais possam ter de manter os juros mais altos por mais tempo do que o previsto.
O que ainda não está claro é se este é um ajuste temporário de mercado, motivado por factores conjunturais como o conflito no Golfo, ou o início de uma reavaliação mais profunda do risco da dívida soberana nas maiores economias desenvolvidas. Também por confirmar fica a resposta dos bancos centrais britânico e japonês, e até que ponto a escalada entre Estados Unidos e Irão se vai prolongar.




